quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Insegurança impede comemorações

Quintas, ou quinta, eram casas de campo com terreno de plantio, o mesmo que granja. Dizia-se em Portugal de outrora quinta, porque os rendeiros pagavam aos proprietários a quinta parte das colheitas, ou seu valor em moeda.” Foi dessa forma que o historiador Câmara Cascudo explicou o surgimento do nome do bairro das Quintas, região antigamente tomada por granjas, mas que hoje representa uma das áreas mais centrais e povoadas da cidade do Natal. Elisa ElsieA realidade vivida hoje nas Quintas é de medo por causa das ocorrências de assaltos, assassinatos e crimes relacionados às drogasO bairro comemorou ontem 292 anos de história, porém com uma nota triste. Pela primeira vez em mais de 10 anos a comunidade não festejou a data com o bloco “Quintas Bacana”, que a cada aniversário levava milhares de moradores às ruas. O fim do bloco é somente uma das mostras do desafio desta região da cidade frente ao novo cenário vivido pelos habitantes, no qual a insegurança vem obrigando muitos a trocarem o bate-papo na calçada pela proteção atrás das grades de casa.A insegurança é considerada o maior problema do bairro e foi o motivo de o “Quintas Bacana” não sair às ruas este ano, depois de a edição 2008 ter sido marcada por um assassinato. O autor da lei que estipula o 1º de setembro como aniversário das Quintas, vereador Edivan Martins, reconhece que a violência, provocada principalmente pelo tráfico de drogas na região, obrigou a adotar uma comemoração mais diversificada, evitando a aglomeração de multidões e novos registros de crimes.Uma realidade absolutamente diversa da encontrada por Maria das Dores Lima da Silva, de 79 anos, ao chegar às Quintas em 1952. Nascida em Nova Cruz, a aposentada recorda de como era o bairro 57 anos atrás. “Não tinha uma casa sequer que não fosse de taipa, mesmo a minha, que era a melhor daqui e foi feita por meu marido, também era de taipa”, relembra.Dona “Das Dores” tem na memória o comércio local, que se limitava a uma feirinha próxima à sua rua, a São Geraldo, e a um “mercadinho do tamanho de nada”. Para ir ao centro da cidade, a melhor opção era pegar o ônibus da linha “Rocas-Quintas”, que passava em frente à sua residência. Os 12 filhos a dona-de-casa criou no bairro e todos ainda moram nas proximidades.Quanto à atual situação das Quintas, Maria das Dores afirma que é bem melhor que há meio século, mas reconhece que falta muito para ficar ideal. “Ainda tem muita coisa para melhorar. É preciso mais segurança e um grande hospital para cá, pois a maternidade é muito pequenininha e o posto de saúde é muito fracassadinho”, resume.Moradores clamam por segurança Às margens do Potengi, à beira da linha do trem, à mercê da sorte. Assim vivem muitos dos habitantes das Quintas, moradores da rua que leva o mesmo nome do rio e que separa a área urbana do mangue. “Não vou mentir. Moro aqui há 30 anos e de melhora mesmo eu só vi colocarem esse calçamento”, aponta o aposentado Jonas Bezerra, de 74 anos. A insegurança, afirma, é mesmo um dos maiores problemas do bairro. “Você vê passar um policial um dia sim, oito não. Quando o pessoal chama, leva uma ou duas horas para chegarem aqui. O cabra já fugiu e já tá do outro lado da ponte”, reclama. A dona-de-casa Maria do Céu Pereira concorda e acrescenta: “Além disso, nem mesmo o lixo levam embora. É preciso às vezes a gente ir deixar lá em cima para poder o caminhão carregar”, revela.Ela entende que é preciso melhorar ainda “muita coisa” no bairro. Uma delas a também dona-de-casa Leonora Justo indica que é a assistência à saúde. “Nosso problema é esse posto, que está passando por uma reforma, mas não adianta reformar, porque nunca tem médico.” Maria do Céu confirma as palavras da vizinha e diz que nem mesmo os exames de sangue está podendo realizar no local.A diretora da unidade de saúde, Aloma Fonseca, afirma que a reforma do prédio deve se encerrar até o final do mês e a nova estrutura estaria preparada para garantir o atendimento da demanda do bairro. “Hoje, parte dos atendimentos estão sendo feitos na unidade do bairro Nordeste, ou na maternidade das Quintas, mas serviços como o de planejamento familiar e o da farmácia continuam sendo prestados aqui”, explica.Dentre os problemas que chegam ao posto, os mais comuns são os casos de doenças de pele e do coração. Já na delegacia do bairro, o 7ª DP, as ocorrências mais frequentes são de assaltos. “E também registramos muitos casos de homicídios motivados pelas drogas”, revela o chefe de investigações, Luiz Antônio de França. Somente este ano, as tentativas de fuga do local já somam 15.A estrutura da delegacia é precária e vem passando por reforma. A quantidade de agentes, porém, continua sendo insuficiente. Do total de 16, cerca de 10 estão à disposição, devido às folgas e férias. O ideal seriam pelo menos 22.Trânsito é problema contínuoAs Quintas são passagem quase obrigatória entre o Centro de Natal e os bairros da zona Norte, região mais populosa da cidade. Apesar da construção da ponte Forte-Redinha, a imensa maioria das linhas de ônibus continua circulando pela antiga ponte de Igapó, assim como os motoristas do carro de passeio, e todos desaguam nas avenidas Mário Negócio e Bernardo Vieira, as duas principais das Quintas. “Todo fim de tarde ainda se cria um engarrafamento aqui na Mário Negócio (em direção à zona Norte) e no comecinho do dia é lá no viaduto da Urbana, na entrada da Bernardo Vieira (em direção à zona Sul)”, aponta o taxista que se identifica apenas como Manoel Henrique. Para piorar a situação dos congestionamentos, enquanto a Bernardo Vieira conta agora com apenas duas faixas para os veículos, a Mário Negócio está marcada por diversas obras paliativas de tapa-buracos, que geraram muitos desníveis na pista, sem contar a falta de sinalização.“É uma buraqueira só e quando tapam é só com uma britazinha, que a primeira chuva leva embora. Perguntei um dia se não tinham como fazer melhor, aí o rapaz da empresa me disse que era para fazer daquele jeito mesmo, se não eles não teriam como ganhar dinheiro fazendo de novo”, revolta-se o taxista, que aponta os diversos buracos existentes nas ruas do bairro. A falta de uma travessia segura na Mário Negócio, ou mesmo a pressa aliada à imprudência, leva muitos pedestres a passarem correndo as três faixas da avenida, colocando em risco eles próprios e também os motoristas, que têm de desviar às pressas para evitar acidentes.Mercado sobrevive a crescimento do comércioAs ruas das Quintas ainda são marcadas por muitas residências cujas portas dão direto para a calçada e também diversos mercadinhos, mercearias nas quais o vendedor conhece o cliente pelo nome. Porém, é cada vez mais comum o surgimento de grandes empresas, lojas, supermercados e outras formas modernas de comércio. O comerciante Domingos Francisco do Nascimento é um dos “sobreviventes” dos velhos tempos do bairro, mas teme pelo futuro do mercado público, onde mantém seu box de venda de peixes há 44 anos.“Cheguei aqui em 1965 e sou um dos dois mais antigos desse mercado. Antigamente era bom demais, a gente faturava muito, mas agora está cada vez mais fraco. Precisa ter mais gente comprando, mas não aparece mais quase ninguém”, lamenta.Recém-reformado, o mercado público é um dos marcos da história das Quintas, porém perde espaço para o chamado comércio de rua. “Está difícil, porque quase não dá mais para ganhar dinheiro”, reclama Domingos do Nascimento. Há nove anos trabalhando no local, a comerciante Ivoneide “Galega” também diz que é preciso melhorar quase tudo no bairro. “No mercado mesmo, o que fizeram de bom foi tirar o lixo, mas até um porta de banheiro está quebrada”, revela a vendedora. Wagner Lopes - Repórter * Fonte:http://tribunadonorte.com.br/noticia/inseguranca-impede-comemoracoes/124121 ** Ontem eu saudava com meus Parabéns ao Amigo Verediano e um grupo de amigos das Quintas que preparão com tanto carinho e esforços a comemoração, hoje dou os meus pêsames, que por falta de segurança(governo e ou desgoverno), o brilho da festa foi ofuscado, pena!

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