domingo, 8 de novembro de 2009

VIAJAR FAZ UM BEM DANADO!!!

Na era da exaustão, o descanso não é mais um privilégio, é um direito. E no mundo inteiro se discute como colocá-lo em prática.

Este é o século do trabalho. A era que substituiu a identidade do indivíduo por sua ocupação profissional dignificou o homem pela produtividade e atrelou o emprego à cidadania. A profissão como o centro da vida e o culto à alta performance carregam um custo alto para a sociedade - o stress. O desgaste generalizado lançou um olhar para a importância do descanso. A necessidade de parar se tornou um debate mundial e interdisciplinar, com respaldo em pesquisas médicas, econômicas e jurídicas. No mês passado, foi aprovado, em caráter definitivo pela Comissão de Constituição e Justiça, um projeto de lei que pretende tornar obrigatória a transferência dos feriados que caem durante a semana para a segunda-feira. "A concessão do benefício dependia da boa vontade do empregador", explica o advogado Antônio Carlos Aguiar. Se não houver alterações no Senado, a lei segue para sanção presidencial.

Outras propostas têm o mesmo objetivo. Uma emenda constitucional tramita na Câmara dos Deputados para reduzir a jornada de trabalho para 40 horas semanais e aumentar para 75% a remuneração das horas extras. Nos Estados Unidos, o Estado de Utah adotou há um ano o "Four-Day Workweek", que fixa o expediente de segunda-feira a quinta-feira - as sextas-feiras são livres. A medida reduziu as emissões de energia em 13% e gerou uma economia de R$ 6 milhões no gasto de gasolina. Cidades como El Paso, no Texas, e Melbourne Beach, na Flórida, se preparam para adotar a medida. A iniciativa governamental também inspirou empresas como a General Motors, que instituiu em setembro o expediente de dez horas durante quatro dias e um dia livre por semana. Já a Avon implementou o "short-friday" - após o almoço das sextas-feiras, os funcionários estão liberados.

FOTO: Toni Pires/Andaluz
EXEMPLO Ana Maria se reabastece do trabalho com momentos de lazer
Algumas empresas são ainda mais ousadas. "A cada sete anos, fecho o escritório durante 12 meses para buscar inspirações", afirma o designer Stefen Sagmeister, que defende os anos sabáticos para o prolongamento da vida útil do funcionário. Para ele, é a oportunidade de o profissional descansar, se aperfeiçoar e rever conceitos, o que reverteria em benefícios para o trabalho e para a sociedade. Segundo os cálculos de Sagmeister, as pessoas passam os primeiros 25 anos das suas vidas aprendendo, dos 25 aos 65 anos trabalhando e, acima dos 65 anos, aposentadas. "A ideia é retardar a aposentadoria em cinco anos e distribuir esse tempo em períodos sabáticos durante os anos de atividade profissional", diz. Na vanguarda do conceito de trabalho com qualidade de vida, o Google concede aos seus engenheiros de software 20% do tempo para o desenvolvimento de projetos pessoais. Na Europa, a ideia também não é nova.
Se a concessão das folgas é boa para o funcionário, pode ser ainda melhor para as empresas. Diversas pesquisas relacionam a falta do descanso e o mal -estar físico e psíquico à queda de produtividade. Levantamento da Universidade de Cornell (EUA) revela que a presença excessiva do indivíduo no ambiente de trabalho aumenta problemas de saúde, como hipertensão e artrite, e diminui o desempenho. O fenômeno já é conhecido como "presenteísmo", que gera perdas de, no mínimo, 60% na produção - excede até mesmo os prejuízos com as faltas por doença. A publicitária Ana Maria Nubié, 42 anos, é um exemplo de profissional do futuro. "A gente não precisa ficar dentro do escritório para produzir", afirma a executiva, que encontra inspirações para o seu trabalho no cinema, em viagens ou no encontro com amigos.
FOTO: Toni Pires/Andaluz
MUDANÇA Carlos Fernando só depois que ficou doente aprendeu a desligar

Pesquisa da Universidade de Nottingham, na Inglaterra, analisou os benefícios dos feriados nos ingleses. "Os dias livres permitiram que eles tivessem mais tempo para pensar e se libertar da rotina e do stress", afirma o pesquisador Scott McCabe, autor do estudo. "O descanso é a principal função do lazer para enfrentar o desgaste das jornadas de trabalho", afirma Tizuko Kishimoto, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. "O trabalho requer uma parada para melhorar a produtividade intelectual", diz.

Mas a concessão do feriado garante o descanso? Não são raros aqueles que levam trabalho para casa, se envolvem em mil tarefas e, confinados em filas de supermercado ou no engarrafamento nas estradas, se estressam mais do que no escritório. "Eu não conseguia relaxar", reconhece o administrador de empresas Carlos Fernando Damberg, 65 anos. Os seus primeiros 30 anos de profissão foram típicos de um workaholic, até o momento em que o corpo pifou. "Tive uma amnésia parcial pelo trabalho excessivo", diz. "Fazia a mesma pergunta várias vezes, pois esquecia a resposta." Damberg perdeu a memória recente e a sobrecarga o impediu de concluir tarefas. "Minha produtividade despencou." A falta de reposição de energia obrigou ao administrador a recorrer à medicação e a se afastar do trabalho por um mês. A recomendação médica foi sumária: descansar. "Mudei a forma com que me relacionava com o trabalho", diz. "Reservei alguns minutos por dia para comer uma maçã e não pensar em nada." O administrador decidiu mudar de profissão. Tornou-se consultor de recursos humanos. Este mês, ele publica o livro "Uma Só Flecha" (Editora Hagnus), no qual aborda, entre outros temas, a importância de relaxar. "Quero ajudar as pessoas a aliar o trabalho à qualidade de vida", diz Damberg, que trocou o fim de semana de viagens por um sítio com esquilos.

"O descanso garante mais energia na volta ao trabalho", afirma o empresário Pierre Schurmann, 41 anos, que carrega o nome de uma família que se tornou ícone da importância da vida fora dos escritórios. Pierre, que hoje mora na Bahia, passa oito dias por mês em São Paulo, num ritmo de trabalho alucinante. Nos outros 22 dias, fica em Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador, onde lê, relaxa e se organiza - mas com o celular desligado. "É importante esse tempo para afiar o machado que corta a lenha", diz ele. A pesquisa "Trabalho, Estresse e Saúde", da Universidade de Tel-Aviv, reforça a tese: descanso significa deixar o trabalho no trabalho. "Usar o celular para assuntos profissionais e checar e-mails da empresa à beira da piscina não é descanso", afirma o psicólogo Dov Éden, autor da pesquisa. O segredo, portanto, é desligar. Com prazer e sem culpa.

BONS EXEMPLOS PELO MUNDO
*Fonte: http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2087/artigo155581-2.htm

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