terça-feira, 9 de novembro de 2010

CONSIDERAÇÕES SOBRE VIAGENS - ANNA MARIA CASCUDO BARRETO

Somos cobradas pela origem e atividade profissional. Médicos, solicitados a exames. Advogados, a solucionar problemas. Aos jornalistas/escritores, esperam-se crônicas. Isso quando fazemos roteiros em grupo, de nível internacional. Sou sempre solicitada a opinar sobre minhas viagens através da palavra escrita. No entanto, não aprecio sugerir pontos turísticos; jamais anoto descrições dos guias. Prefiro aguardar quando as lembranças avivam a memória e colorem a lembrança. Em 2008, Camilo e eu conhecemos cidades da Oceania, visitando Nova Zelândia e Austrália. Ficamos encantados com a paisagem diferente, a educação fina dos habitantes, o avanço, a intrepidez contrastando com os vestígios da colonização inglesa, presentes relativamente a horários rígidos, limpeza absoluta. Neste ano, em julho, estivemos por vinte e cinco dias, com filhos e netos, trilhando estradas excelentes de Portugal e Espanha. O objetivo, conhecer locais citados pelos nossos antepassados. Busca as raízes. Sevilha – de onde partiram os Freires – Viana do Castelo, terra natal dos Viana, Porto, origem dos Barreto. Decifrando recordações do passado, reconhecemos traços em comum. O espelho, os iguais, mesmo antes desconhecidos. O português é generoso, gentil mesmo sem efusões, sorri pouco, mas sabe receber. Orgulhoso dos seus feitos antigos, da sua história de descobrimentos. Os festins gastronômicos vão ficar na nossa vida, simbolizando confraternização. O espanhol é aparentemente ríspido, mas acolhedor. Somando a dimensão das raças que o formaram, emerge um povo de gestos largos, orgulhoso da musicalidade da coreografia mais linda do mundo – o flamenco, e da língua maviosa, castelhano. Agora, mais uma vez seguindo a batuta da Arituba, mergulhamos na Terra Santa e no Egito, com mais quarenta companheiros, além de marido, filha, genro. Católica praticante, o roteiro é de crença substanciosa. Tentamos – ousadamente – seguir os passos de Jesus, de Maria, de José, dos apóstolos. Queremos andar próximos a Ele, adivinhando seu caminho imortal. Pensar no Anjo anunciando a adolescente judia, sua gravidez abençoada, assistir missa no local provável do Sermão da Montanha, molhar os pés na água que assistiu tantos milagres, foram fatores que aumentam nossa fé, revelações fortes, impulso a religiosidade. E o povo? No contato diário, é educado, competente, inteligente, bonito. Segue rigorosamente tradições religiosas, como o shabat, descanso sagrado do seu trabalho, sem esquecer o cuidado turístico. Mas é consciente do sofrimento de gerações. Das perseguições. Do fato de viver cercado de inimigos. Daí sua atitude de desconfiança quanto aos visitantes, revistando malas, conferindo mapas, verificando livros, sempre esperando agressividade quando só temos para oferecer curiosidade e compreensão. Cidades modernas, atuais. Vigília permanente, stress contínuo. Não é fácil ser turista naquela terra... Mas a ida ao Museu do Livro e do Holocausto, o heroísmo de Massada, e a intensidade salgada e repleta de lendas do Mar Morto jamais serão olvidadas... Já o Egito corresponde aos sonhos. O rio Nilo, as pirâmides, os túmulos, as múmias, excedem nossa perspectiva. A gente é encantadora, alegre, simpática ao extremo. Ama os brasileiros. O sorriso sempre enfeita rostos africanos. O transito é caótico, e o bom humor não os abandona. Mas... Ficamos felizes em ser mulher ocidental. O uso da burca deve ser angustiante, a inferioridade feminina gritante. A visitante, porém, se sente mimada, apreciada, elogiada. Será apenas para vender melhor? De qualquer modo, válido e gratificante... Quando fomos a Istambul, na Turquia, fiquei maravilhada. O fascínio retornou. Homens fumando narguilé, chá com cheiro de flores, os minaretes, enfim, a atmosfera reinante, parece página do livro das “Mil e Uma Noites”... Ao nascer do sol, acorda-se com a cantoria dos muezins, repetida cinco vezes durante o dia. Amplificada por centenas de alto-falantes, a voz deles cobre toda a cidade num chamado de prece tão antigo quanto o Islã. Luís da Câmara Cascudo afirmava que o melhor da viagem é o retorno. Assim, volta para Natal, “noiva do sol”, beijo e enlevo de rever a família. Alegria de novos conhecidos, encontro de velhos amigos. Corações repletos de recordações inesquecíveis... Tapioca, cuscuz, paçoca, peixe cozido. Os melhores pratos, segundo tempero pessoal, carregado do som da infância e da cozinha materna. Descansamos na rede, acolhendo carinhosamente o corpo cansado das andanças e visitas. É refugio, ninho. Agora, é aguardar conhecer outras culturas, apreciar filosofias, culturas diferenciadas. Mas curtir, por muito tempo, a ventura de pertencer ao Brasil, nordeste, Rio Grande do Norte, Natal. Concordamos: O melhor do Brasil é o brasileiro! Natal, 1º de novembro de 2010
Anna Maria Cascudo Barreto - Escritora, Acadêmica.

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