segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Desabafo de uma filha (em defesa de "Chica Boa")-Mossoró/RN

Desabafo de uma filha Diante da situação humilhante a que minha mãe se viu exposta aos 82 anos de idade e 22 de total entrega ao Abrigo Amantino Câmara, como filha que sou e com respaldo de minha irmã, Rosângela, de meus filhos e dos demais familiares, não poderia deixar esse momento passar em brancas nuvens, sem tecer algumas considerações. Se por acaso ainda existe alguma pessoa que não conhece ou ainda não ouviu falar sobre "Chica Boa" (Francisca Barreto), pode ter certeza que não é mossoroense. Muito nos indignou a forma como minha mãe foi afastada da sua lida diária, a qual iniciava todos os dias às 3 h da madrugada, com saída para 'sua casa' - como nos referíamos porque era assim que ela considerava – religiosamente às 4 h da manhã, na garupa da bicicleta do vigia da rua em que reside, para começar a sua labuta em prol daqueles a quem considerava filhos e por eles era considerada uma mãe. Eu, minha irmã, uma prima e uma tia - já falecida - somos sabedoras das dificuldades que mamãe enfrentou quando ficou viúva aos 31 anos de idade¸ com duas filhas pequenas, uma cunhada e uma prima do marido, já com idade avançada, para sustentar sem que na época tivesse condições para tal, o que não a intimidou a seguir em frente, buscar emprego, para não ver a sua família com fome. Isso, porque meu pai faleceu subitamente aos trinta anos, sem deixar a família alicerçada. Mas, ela corajosamente, assumiu a chefia da família, sem se importar consigo mesma, numa renúncia radical aos seus próprios sonhos, enquanto ser humano, para buscar satisfazer os sonhos e as necessidades da família. Houve tempos em que ela trabalhava os três expedientes e nunca a vi chegar cansada, estressada ou reclamando de alguma coisa. Sempre tivemos comida na mesa, frequentamos os melhores ambientes, estudamos num dos melhores colégios da cidade, o Diocesano, fui funcionária concursada do Banco do Brasil S.A., e tudo isso, à custa do seu suor, da sua capacidade e da sua entrega. E mais, fomos criadas fazendo eventos para os tuberculosos, no hospital em que trabalhou, também, por muitos anos, quando o contato era evitado devido ao alto risco de contaminação. Mas, ela não temia porque estava a fazer o bem aqueles que se sentiam excluídos da sociedade, ou melhor, a sociedade os excluía, pois Deus olha pelos que são humildes e caridosos. Começou no sanatório como simples auxiliar de enfermagem, aprendendo na prática por não existir, naquela época, cursos desse tipo. Passava as noites em plantão, e quando retornava para casa na manhã do outro dia, só dava tempo se arrumar e ir para a Escola Normal se qualificar como professora para correr atrás de um emprego mais seguro. Concluído o magistério, passou a trabalhar na escola da Rede Ferroviária, aonde chegou ao cargo de Diretora, sem contar que passou por escolas do estado e até em pequeníssimas escolas particulares da periferia, no turno noturno, distantes de nossa residência, sob chuvas e lamas, sem nunca desistir da luta. Já com as filhas na adolescência. Quando foi criada a Faculdade de Enfermagem ela, bravamente, já quarentona, prestou vestibular sendo aprovada para nosso orgulho. Vê quão guerreira, essa mulher é, não baqueando diante de tantos imprevistos, alguns até dolorosos, surgidos em todo o seu caminhar. Aí, agora vêm pessoas que não sabem sequer o verdadeiro sentido da vida, porque ainda estão a engatinhar na mesma, simplesmente porque detém um título e uma profissão, que não deixa a dever nada a ela que também é graduada, portanto, se encontra no mesmo nível, mas, que nem por isso precisou pisar os mais humildes, os que não puderam ou não tiveram a coragem ou sorte de chegar aonde ela chegou, e puxam-lhe o tapete. Preferimos ter essa mãe simples, mas sincera, corajosa, que nunca precisou utilizar de certos meios, nem mesmo o político, para conseguir sobressair-se ou aparecer, porque quer ela queira ou não, quer gostem as pessoas ou não, a espiritualidade dela, a sua aura sobressai naturalmente pelo amor que sempre dedicou à humanidade e porque esse amor emana em todo o seu ser. Podem até balançar o seu alicerce, porque difamação, injúria, ingratidão e traição são atos ínfimos que ferem mais pela decepção que se tem quando nos conscientizamos que existem pessoas capazes de tal feitos, porque é digno de pena quem assim procede e pena é um dos piores sentimentos que se pode ter por alguém. Só que jamais a derrubarão. Que analisem e se situem diante do ocorrido, porque ninguém é dono da verdade, nem em faculdade nenhuma se encontra a fórmula correta de saber viver, porque só os anos vividos, a experiência desenvolvida ao longo de um trabalho, é que nos dá a sabedoria de discernir o bom do ruim, o certo do errado. Como alguém pode estar em defesa de idosos quando peita e maltrata uma idosa, pelo simples fato de ter ido de encontro ao que considera suas verdades? Isso, não seria por demais, hipócrita, quando sabemos, que é mais fácil os mais jovens se adaptarem aos valores dos idosos, mesmo que, apenas em respeito aos seus posicionamentos, do que exigir que um idoso acate as radicais mudanças que se processam nesse mundo globalizado? Como podemos confiar em pessoas que pregam o termo 'humanização', hoje tão em voga, quando sequer sabem, pelo jeito, o real significado dessa palavra, se não têm a menor hombridade de com carinho, com maleabilidade, tentar contornar as divergências entre as gerações? Sei que a leitura desse texto pode não se tornar agradável pela sua extensão, mas tinha que expor minuciosamente um pouco da grande pessoa chamada 'Chica Boa', a quem o saudoso Dorian Jorge chamava com carinho de "Chica Ótima". A verdade mesmo, é que não temos o direito de atirar pedras em ninguém, e justo por ter consciência dos valores de nossa mãe, de suas verdades, de sua dignidade, de sua luta contínua não só em prol da família, mas do ser humano como um todo, cientificamos que estaremos sempre em sua defesa e não aceitaremos que maculem a sua imagem, independente da profissão de quem a queira fazer. Fica aqui, o registro da injustiça que fizeram à minha mãe, não pela sua saída em si, porque um dia isso teria que acontecer, mas pela forma como se deu, por sequer terem tido a singeleza de informá-la de que seria afastada, sendo sabedora pela filha, que por sua vez, foi alertada por terceiros do que iria ocorrer, o que denota o total descaso de que foi vítima, como se fosse um objeto descartável ou como se houvesse cometido um grave crime. Aproveito para agradecer em nome de toda a família a todos que se solidarizaram conosco nesse momento e que mantêm um carinho especial por nossa mãe. Rosandra Fernandes Barreto

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