quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Festa do Menino Deus, do governo, termina em protesto

“Um registro de indignação da classe artística”. Foi assim que 150 artistas - participantes do auto de natal A Festa do Menino Deus realizada pelo governo do Estado - classificaram a carta lida ontem em público ao final do espetáculo, em sua última noite de apresentação. Endereçada à governadora Wilma de Faria, os artistas escreveram o repúdio em relação aos últimos acontecimentos relacionados ao processo artístico do espetáculo. A carta enumera o drama em que os artistas e envolvidos na produção viveram nos últimos dias, quando no dia 8 de dezembro a governadora cancelou o espetáculo. “Fomos tomados de surpresa, gerando prejuízo e frustração para toda a equipe (...) Após protestos na governadoria, a excelentíssima governadora voltou atrás e liberou o espetáculo”, dizia a carta.

O texto segue apontando os problemas. Dos R$ 500 mil que seriam destinados ao espetáculo, foram subtraídos R$ 150 mil, quando diminuíram os cachês de todos os artistas e segundo a carta, “alguns produtores tiveram que abrir mão dos seus cachês para o espetáculo acontecer”. A carta expressa também sobre a eliminação dos lanches durante os ensaios, a diminuição do palco, a falta de estrutura dos camarins, a diminuição de um dia de espetáculo e também a ausência de banheiros químicos para a população. E o texto não encerrou apenas nos prejuízos relacionados ao auto de natal. Os artistas cobraram uma posição do poder público em relação ao fomento à cultura e aos eventos já consolidados na cidade que estão ausentes como a Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte, que desde setembro não se apresenta em público, o Projeto Seis e Meia que teve seu fim três meses antes do previsto no planejamento do governo, a República das Artes que está à míngua, os cachês pendentes de diversas apresentações durante o ano, entre outras solicitações. “Queremos um posicionamento da senhora em relação a todos estes pontos e exigimos respeito em relação à cultura. Este anacronismo nefasto que vive e respira a cultura deste Estado”, dizia a carta.

O texto foi escrito pelos próprios artistas e lido ao final do espetáculo por uma das bailarinas do elenco, quando arrancou aplausos de pé de todo o público presente, aproximadamente duas mil pessoas. O espetáculo tem direção de João Marcelino, texto de Racine Santos, produção de Ivonete Albano e um elenco de 150 artistas. Leia a carta na íntegra O espetáculo "A Festa do Menino Deus" Carta dos artistas A paisagem cultural só se enriquece e se diversifica consistentemente no longo prazo, fruto de processos de aprendizado e transmissão que alargam o repertório de gosto, a sensibilidade ao fazer artístico....1 Excelentíssima Senhora Governadora do Estado do Rio Grande do Norte Wilma Maria de Faria Os artistas envolvidos no espetáculo “A Festa do Menino Deus” 2009, mediante o presente documento, vêm à Vossa presença relatar e solicitar o que abaixo se segue: Há doze anos (de 1997 a 2009), a sociedade deste Estado vem desfrutando da apresentação de um auto natalino, no qual se comemoram as festas de final de ano com uma encenação grandiosa, que envolve nossas mais diversas categorias artísticas e contempla como público toda a comunidade potiguar. Contudo, no dia 08 de Dezembro recente, foi anunciado o cancelamento do espetáculo, notícia esta que a todos tomou de surpresa e frustração, gerando prejuízos de todas as ordens: 1) no que diz respeito à comunidade local, deixaríamos de encenar um espetáculo que já se incorporou ao patrimônio cultural do Rio Grande do Norte; 2) no que tange à comunidade artística, representa um retrocesso dos direitos já conquistados, resultantes do esforço pela mais elevada profissionalização e pela crescente qualidade dos espetáculos que viemos realizando para a comunidade local, regional, nacional e internacional; e, finalmente, para a gestão de políticas culturais, reflete um anacronismo nefasto, dado que defendemos para nosso Estado o fortalecimento da classe artística, a defesa de nossos bens simbólicos e a consagração da arte como um dos pilares do desenvolvimento. Diante de tal fato, o elenco deste espetáculo mobilizou-se para reivindicar a manutenção do projeto, com vistas a garantir o respeito a seus direitos e aos direitos da população relativos ao acesso aos bens culturais já incorporados à nossa programação local. Embora o êxito de nosso pleito, nova notícia, no último dia 14 de dezembro, surpreendeu negativamente a classe artística e a sociedade potiguar, no sentido de vermos subtraída a quantia de R$ 150.000,00 (cento e cinqüenta mil reais) do orçamento do espetáculo, ensejando conseqüências negativas nas mais variadas dimensões, a exemplo da exclusão de profissionais contratados, da diminuição de cachês de todos os profissionais (e até da renúncia de alguns outros), da eliminação de serviço de lanche aos profissionais durante os trabalhos, da redução de um dia de apresentação, da eliminação do recurso de transmissão simultânea do espetáculo, da diminuição de camarins para os artistas, da diminuição do palco (de 40m x 20m para 30m x 18m), da diminuição de recursos de iluminação, da eliminação de estrutura de camarote e da eliminação do serviço de banheiros químicos para o público. Em razão de tudo isto, e diante das mudanças nas políticas de cultura que hoje vem passando nosso país, é momento de refletirmos sobre o papel da arte na atual sociedade, de forma que não podemos fazer dela um recurso de mero entretenimento barato para a população, mas sim devemos reconhecê-la como um meio para fortalecer nossas identidades culturais, como um instrumento para a adequada formação de platéias e como ferramenta para a valorização da produção artística local. Igualmente, não podemos mais vulnerar a produção cultural do Estado às contingências orçamentárias, visto que ela deve ser tratada como política pública permanente e em contínua ampliação. Portanto, esta carta tem como fim o registro da indignação da classe artística diante dos recorrentes atos de desrespeito a este trabalho e à cultura potiguar, bem como se configura como uma evocação ao compromisso deste governo para que se faça da cultura uma política pública estável e fortalecida. Para tanto, necessário se faz o reconhecimento da cultura como um bem humano fundamental, bem como se deve reconhecer o fazer artístico como um fazer profissional e que exige a consagração de direitos irrenunciáveis. Neste sentido, reiteramos a importância da valorização do espetáculo “A Festa do Menino Deus”, por boa parte dos motivos acima citados e aproveitamos este mesmo documento para reivindicar um olhar atento à arte e à cultura de nosso Estado, questionando a situação de parte de nosso patrimônio, submissa ao total desuso ou abandono: Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte, em assembléia há dois meses; Projeto Seis e Meia, descontinuado desde outubro do presente ano; República das Artes, atualmente com sede provisória e esperando oportunidade de negociação para uso de um prédio localizado no Bairro das Rocas; A efetivação de pagamentos de cachês pendentes e de verbas obtidas por meio de editais com resultados já publicados. Certos de contar com o apoio deste governo e das demais gestões de nosso Estado, requeremos que a Excelentíssima Governadora expresse um posicionamento oficial sobre os fatos e reivindicações acima relacionados, fazendo da cultura, enfim, uma verdadeira e autêntica política pública estatal. Natal, 29 de Dezembro de 2009. Coletivo de Artistas do Espetáculo “A Festa do Menino Deus” 2009" *Fonte: http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/festa-do-menino-deus-do-governo-termina-em-protesto/136324

* já dizia Boris " Uma vergonha!!!" por Governo.

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