segunda-feira, 24 de maio de 2010

FAZENDA BOM JARDIM - O Passado é logo alí...

Era no tempo do rei. Província humilde, o Rio Grande do Norte vivia de gado e cana-de-açúcar, com esparsas propriedades rurais a dominar a paisagem agreste. Comuns nesse cenário, casas-grandes e senzalas se erguiam como marcos da vida econômica e social daquele Nordeste antigo. Uma época que não mais existe, mas que ainda conserva alguns sinais para contar sua história. A Fazenda Bom Jardim, na zona rural de Goianinha, é um desses lugares onde parece que o tempo não passou. Há dez anos, utiliza seu espaço como forma de turismo rural e cultural, em que visitantes entram em contato com o ambiente e os sabores de tempos passados. Um passeio pelo passado, com o conforto do presente.

Terceira casa da fazenda, construída no começo do século 20A casa-grande se impõe na Fazenda Bom Jardim como o ponto central do passeio. É um prédio térreo do começo do século XIX, de paredes de taipa, ampla varanda, janelões, e pátio ajardinado. Uma típica construção do Brasil colonial, mantida praticamente a mesma até os dias de hoje. A família Araújo Lima, ancestrais donos dessa terra, continuam como anfitriões. “O turismo tem sido para nós uma troca de experiências que exalta a história e o valor da fazenda. É uma forma também de conservá-la para sempre”, diz Helena de Araújo Lima, 88 anos, a matriarca que ainda mora na casa e recebe os visitantes com todo o conhecimento de causa.

No mesmo local, em 1928, o intelectual modernista Mário de Andrade se hospedou por dez dias e conheceu o coquista Chico Antônio, que à época era um dos empregados da fazenda. O encontro foi registrado no livro “Turista Aprendiz”. Andrade veio a convite do jornalista e crítico de arte Antônio Bento, neto do coronel Bento de Araújo Lima (dono da fazenda desde 1850). São histórias que se juntam como atrativos ao patrimônio cultural da Bom Jardim. “Nossos visitantes não vêm só para olhar, comer e ir embora. Tem toda uma história que a gente procura passar para as pessoas”, acrescenta Catarina Araújo, filha de dona Helena. Não há hospedagem. As visitas devem ser sempre agendada, para o número mínimo de oito pessoas.

A casa grande

A quase bicentenária casa-grande e partes de seu terreno foram sutilmente preparadas para receber o público. O ambiente interno tem pouquíssimas alterações. A arquitetura é funcional e simples, sem adornos. Há quatro quartos e três salas com funções definidas – incluindo uma cujo acesso das mulheres era proibido. O mobiliário reúne peças que pertenceram a diferentes gerações de moradores, entre cristaleiras, escrivaninhas, mesa, espreguiçadeira, camas, espelho, oratório, piano, e curiosidades, como as cuspideiras. A cozinha antiga da casa ainda conserva o fogão de lenha, feito de barro e revestido de tijolos. Algumas comidas ainda se preparam por lá. As janelas e portas ainda contam com suas grandes fechaduras originais de ferro.

As refeições do café da manhã, almoço e lanche para visitantes são realizadas no pátio traseiro da fazenda, num espaço especialmente criado para tal. Foi construída uma área coberta, utilizando restos de um antigo galpão de olaria existente no local. O local é amplo, arejado, com 13 mesas, visual rústico e cercado por um jardim de diversas plantas e flores.

O cardápio foi elaborado por dona Helena e suas filhas, seguindo os preceitos da cozinha regional. Pela manhã, tapioca, cuscuz, queijos de coalho e manteiga, ovos mexidos, pães, bolos e frutas. No almoço, galinha caipira, carne de sol, paçoca, escondidinho, carneiro torrado, moqueca com pirão de peixe, camarão no coco, casquinho de caranguejo, ova de curimatã, sarapatel. E ainda compotas, doces de frutas da época, manjar, cocada de forno, e bolo de macaxeira – receita de família. Tudo é feito artesanalmente, sem ingredientes industrializados. Vegetais e carnes vêm da própria fazenda.

Passeios e caminhadas

A visita à fazenda inclui, além da “viagem no tempo”, atrações extras como passeio a cavalo e caminhada por duas trilhas entre a rica vegetação das redondezas. O visitante também pode conferir, a 4km da casa-grande, o Engenho Mucambo, onde a família Araújo produz as cachaças Maria Boa e Mucambo.

Segundo Catarina Araújo, a entrada da Fazenda Bom Jardim no roteiro turístico se deu quase por acaso. “Começou quando empresários turísticos de Pipa vieram até aqui para comprar telhas e tijolos artesanais que fazíamos na nossa antiga olaria. Eles deram a ideia de criar um passeio para que seus turistas pudessem conhecer o local”, conta. O primeiro público foi basicamente europeu. Portugueses, ingleses, italianos e escandinavos. “Fomos aprovados pela vistoria técnica, incluindo a segurança. Daí tivemos que nos aprimorar mais para receber o público”, acrescenta. A fazenda já foi cenário de editoriais de moda, objeto de pesquisa para estudantes, cursos de fotografia, e eventos de empresas. “Somos um tipo de oásis no meio do sertão. Aqui se pode ficar à vontade”, diz.

Engenho está no roteiro

O primeiro engenho da Bom Jardim é uma relíquia em ruínas, mas a família Araújo Lima retomou a atividade ancestral há sete anos, adaptada aos novos tempos. A quatro quilômetros da casa-grande, também território familiar, está o Engenho Mucambo, que há sete anos entrou no terreno das cachaças artesanais com as marcas Maria Boa e Mucambo. A ida ao engenho também faz parte do passeio à fazenda histórica de Goianinha.

Diferente dos engenhos de séculos passados, o de hoje conta com todo um maquinário movido a vapor. Frederico Araújo Lima, proprietário das caninhas, mostra aos visitantes todas as fases do processo. Desde a máquina de moenda, passando pela limpeza e preparo do caldo, fermentação e destilação – de onde se destacam os belos alambiques. A bebida é levada depois para quatro grandes barris de 20 mil litros. A madeira mais clara produz a Maria Boa, e a mais escura, a Mucambo. Por fim, o engarrafamento.

São cachaças de processos diferenciados, que adquirem aroma e sabor a partir da madeira. “É uma caninha que agrada mais aos americanos e brasileiros, já que europeu se interessa mais pela caipirinha”, afirma Fred. Além das saborosas bebidas, o empresário também evidencia o desejo de criar outras atrações para o engenho. No local, também está criando a Casa do Caboclo, uma espécia de museu com peças que mostrarão o estilo de vida de colonos, sertanejos, e demais tipos da área. No engenho também se pode fazer duas trilhas pela Mata do Mucambo, para conferir uma rata reserva de mata atlântica brasileira, entre árvores e arbustos. No local também há uma criatório de emas.

* Fonte:www.tribunadonorte.com.br

Publicação: 21 de Maio de 2010 às 00:00

Um comentário:

  1. Eu já estive nesta fazenda e adorei...A Dona Helena é uma senhora surpreendente cheia de boa disposição....
    E adorei o sumo de maracujá que até hoje nunca mais encontrei igual

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