quarta-feira, 8 de junho de 2011

Por Que Não o Que é Nosso? - Laurence Bittencourt

Laurence Bittencourt nasceu em Natal. É jornalista, psicólogo, crítico literário e professor universitário. Mestre em Literatura Comparada e doutorando. Tem publicações em jornais e revistas da capital e outros Estados. Desenvolveu e aprofundou seu interesse em literatura quando de seus estudos em São Paulo ainda muito jovem. O livro Por Que Não o Que é Nosso? Laurence Bittencourt Leite, Editora Sol, R$ 30, foi lançado no dia 11 de maio, na livraria Siciliano do Midway Mall. Atualmente dedica-se ao trabalho de dois livros futuros.
O que fazer para se criar uma crítica efetiva no cenário literário potiguar? Do ponto de vista prático, a primeira condição é aparecer pessoas dispostas a assumir essa função e lugar. Sem isso nada feito. Segundo, com relação aos meios de comunicação, que sejam oferecidas condições profissionais e operacionais para o exercício dessa atividade. Terceiro, e talvez o mais importante, que quem venha a assumir essa função não tema as susceptibilidades que porventura possa provocar nos criticados. O importante é entender, Carlos, e isso é um pressuposto básico na minha avaliação, é que nenhum país floresce culturalmente sem a participação e a presença direta da crítica. Aliás, o pensamento crítico é condição sine qua non de toda a civilização e não me refiro apenas à civilização Ocidental. Criar um ambiente culturalmente rico é ter nesse ambiente a possibilidade da crítica. A universidade poderia ocupar este espaço vago da crítica? As Universidades, e eu coloco no plural, podem sim ocupar também este espaço. É o que todos esperamos. Penso mesmo que as universidades devem participar muito mais ativamente da nossa sociedade. Eu que ensino em uma Universidade particular sempre defendi que os nossos autores na literatura, poesia, teatro, artes plásticas, etc, fossem discutidos e debatidos. Já tivemos exemplos em que o poeta Alex Nascimento que é um primoroso artista, não pôde ser objeto de estudo de mestrado numa das nossas Universidades sob a alegação de que sua produção ainda não merecia tal análise. Isso é um absurdo. Um atraso, provincianismo mesmo, e até diria preconceito. Discutir os nossos nomes, aliás, Carlos, é também o tema do meu livro lançado recentemente “Por que não o que é nosso?” em que procuro discutir esses impasses com relação ao nosso fazer cultural. Imaginar que nos falta talento que não possam merecer atenção analítica nos mestrados e doutorados na nossa terra, é contra-senso e preconceito para dizer o mínimo. A literatura potiguar tem alguma saída para ser vista pelo resto do país? Esse é o ponto central. O nosso alheamento em relação ao resto do país desponta como algo terrível. A questão é, como fazer essa inserção. Dizer por exemplo que o Nordeste sofre de preconceito com relação a centros maiores, me parece não ser uma boa resposta, haja vista termos nomes no cenário nacional. Sempre tivemos. Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, Jorge Amado, José Lins do Rego e tantos outros. Claro que nossas editoras locais ainda não conseguiram estruturar um projeto de divulgação nacional dos nossos autores atuais. Mas é preciso. Já me contaram que o escritor Carlos Fialho que é jovem e vem editando gente jovem ainda desconhecida, vem buscando atuar neste sentido para superar os impasses gerenciais e mercadológicos. Agora em paralelo, e essa é uma tese que eu defendo, é preciso que formemos uma estrutura cultural local mais sólida, mais rica, mais atrativa, mais diversificada. Criar uma estrutura local rica e dinâmica é imprescindível. Eventos como “Bienais”, “Encontro de Escritores”, são extramemente importantes para fomentar esse ambiente. E aí a participação da iniciativa privada, do setor público, das universidades contam muito e são necessárias. Sei que fugi um pouco de sua pergunta inicial, mas inserir nossos nomes nacionalmente passa também por uma estrutura local mais sólida e menos tímida. Que autores você destacaria na literatura potiguar? Já citei aqui o poeta Alex Nascimento, e me parece perceptível que na poesia parece residir nossa força maior. Tenho essa impressão. Nomes como Marize Castro, Ana de Santana, Iracema Macedo, Diva Cunha, sem falar em Zila Mamede pontuam admiravelmente ao lado de Luis Carlos Guimarães, Avelino Araújo, Jarbas Martins, Jorge Fernandes, Demétrio Diniz. E claro que temos outros nomes. O escritor Nei Leandro de Castro, o grande Franklin Jorge que escreve admiravelmente bem, François Silvestre se relacionam e bem com Américo de Oliveira Costa, Eulicio Farias de Lacerda, Câmara Cascudo, Auta de Souza etc. Agora o que é preciso é discutir esses nomes, criticamente, sem receio. Posso acrescentar dois nomes novos que ainda vão pontuar e bem em nosso meio: o poeta José Delfino que tem feito uma poesia de enorme qualidade e o contista Charles Phelan, um escritor admirável. Existe mercado para a venda de livros de autores locais ? Aqui em noite de lançamento quando o sujeito vende 200 exemplares é considerado “best-seller”. Eu acho isso o fim. Mas sinceramente há esperança. Qual é? Você pode perguntar. Eu digo: já estamos falando disso. Tocando nesse tema. Isso é novo. Mas ainda há muitos pruridos quanto ao fato dos nossos autores, nossos artistas viverem do seu oficio, como um trabalhador qualquer. Ainda temos a idéia de que artista bom é artista que morre de fome e não vende nada. Escrever é difícil, leva tempo, investimento de leituras, portanto, quem o faz deve merecer ser bem pago, e muito lido. Agora óbvio, que ninguém impõe isso ao público. E mais uma vez eu volto ao tema: uma estrutura local forte culturalmente leva ao aquecimento desse mercado que você se refere. Veja bem, quando eu ia a Recife aqui próximo e não faz tanto tempo, eu sempre via nos jornais televisivos de lá, sempre terminando com artistas locais, pernambucanos, divulgando seus trabalhos, lendo um trecho de um livro, de um poema, tocando uma música etc. Eu voltava e não via nada disso aqui. Comecei a falar disso insistentemente nos jornais. Não digo que fui eu o responsável, claro, mas sei de minha participação nessa história, e hoje já temos essa prática nos nossos canais televisivos. É dessa estrutura local mais viva de que falo e cobro. E certamente ainda podemos abrir mais espaços. O que você acha da nossa criação teatral? Não falo das montagens, mas dos textos. Houve um tempo em que eu estudei em São Paulo e li muito sobre teatro, me apaixonei na verdade. Nomes como Ionesco, Bernard Shaw, Eurípides, Sófocles, Shakespeare, Marlowe, foram lidos com sofreguidão. Bom, mas e a nossa produção, você pergunta? Pois é, carecemos de nomes mais visíveis, e consequentemente de textos. O primeiro nome que me vem à mente é o de Racine Santos. Mas é pouco. A questão é sairmos dessa visão de que teatro só pode ser pensado e escrito em sintonia com festas folclóricas, bumba meu boi, ou apenas teatro infantil. * Toque Livro e Cultura por Carlos de Souza
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