terça-feira, 12 de julho de 2011

O AGRESTE SE DESCORTINA

Yuno Silva repórter A ocupação mal distribuída do território brasileiro é notória, e a tendência histórica de migração para o litoral reflete no crescente desconhecimento geográfico de belas paisagens interioranas espalhadas pelo RN, como as vistas em Monte das Gameleiras. Município encravado na beirada do trecho potiguar da Serra da Borborema, e distante apenas 130 km de Natal, Gameleiras tem pouco mais de 2,3 mil habitantes e guarda boas surpresas para quem quer mudar de ares e de clima. Com temperatura amena, que gira na faixa abaixo dos 20 graus durante o período de inverno, a cidade estreou como cenário de festivais gastronômicos na última semana, quando foi sede - entre os dias 7 e 10 de julho - do evento que abre oficialmente o "Circuito das Serras".
Yuno SilvaMonte das Gameleiras muda a rotina para receber o dobro de sua população durante festival gastronômico e culturalMonte das Gameleiras muda a rotina para receber o dobro de sua população durante festival gastronômico e cultural
Apesar da semelhança com outros eventos do gênero, onde destacam-se as oficinas culinárias, degustações e apresentações artísticas, os festivais do Circuito fazem a diferença nas cidades que passam devido a realização de consultorias na área de alimentação - iniciativa que, por tabela, também beneficia o segmento turístico. "A equipe de produção está aqui há três meses preparando a cidade para receber o festival, e o saldo do evento superou nossas expectativas", afirmou Edinha Pinheiro, prefeita de Monte das Gameleiras. "Recebemos cerca de seis mil visitantes no período, terrenos e imóveis foram comercializados e não foi contabilizada nenhuma ocorrência", comemora. Para receber melhor os visitantes, as praças e os canteiros foram remodelados, a iluminação pública foi incrementada e até a igreja matriz de São Sebastião recebeu mão nova de tinta. Outro detalhe que merece ser ressaltado é a forma que encontraram para acomodar todos os turistas: as famílias que participaram do projeto "Café, cama e rede", do Sebrae-RN, alugaram suas casas durante o período do festival. O evento mudou a rotina de dona Verônica, que alugou sua residência para um grupo de turistas e convidados do festival. "Aqui não tem festa que dure mais de uma dia. Estou adorando a movimentação e todo mundo ganha um dinheirinho", disse ela, lembrando que seu filho Jociano é jogador de futebol e está atualmente na Associação Desportiva Cabofriense. "Além de aliar a boa gastronomia com ingredientes locais que caracterizam cada lugar, o circuito ainda oferece programação cultural diferenciada para toda a família e, acima de tudo, apresenta o potencial turístico das regiões serranas do RN", garante o produtor e gourmet Walde Faraj, há nove anos envolvido com festivais gastronômicos pelo interior do Estado. Apesar do envolvimento da comunidade local com o evento e dos benefícios econômicos para a cidade como um todo, uma característica recorrente dos festivais - e que não foi diferente em Gameleiras - é a divisão natural do evento em dois espaços distintos: o lado popular e o lado sofisticado. No primeiro, as bebidas oficiais são a cerveja e a cachaça. É também onde ficam os vendedores ambulantes de cachorro quente e batata frita, e onde é montado o palco principal com atrações do quilate do forrozeiro pernambucano Jorge de Altinho e do sanfoneiro Luan de Amazan (filho do forrozeiro pernambucano). Já os visitantes concentram-se onde se houve música instrumental, MPB e pop rock (Diogo Guanabara, banda Macaxeira Jazz, banda Sotaque), e onde ficam os restaurantes convidados. A fronteira que divide esses dois mundos é representada pela cozinha industrial, lugar das principais atividades gastronômicas: este sim, um lugar democrático que une todos os públicos. "A cozinha show é o espaço itinerante do festival, montada ao longo dos anos. Hoje, ela pode ir a qualquer lugar e servir 1300 pessoas. No festival, toda a degustação das oficinas é gratuita para a plateia", disse Walde. Destaque para a oficina infantil, com chefs e o elenco do Circo Tropa Trupe, envolvendo quase cem crianças. Anjo Azul vai para Gameleiras Apesar da pouca infraestrutura para atender o turismo, tudo é uma questão de tempo em Monte das Gameleiras. Um bom exemplo dos novos investimentos que começam a surgir no alto da serra é a pousada Pedra Grande: inaugurada no início deste ano e construída em estilo que lembra a arquitetura rural da Holanda, a construção vem atraindo cliques de quem visita a região. Outra construção que dividirá atenções com as belezas naturais do município, e se tornará uma atração instantânea, será a estátua do Anjo Azul. Desde 2007 chantada na avenida Hermes da Fonseca, no bairro do Tirol, Natal, a escultura de 12 metros e 28 toneladas de ferro e concreto foi doada ao município por Walde Faraj. "Após esse período de chuvas, vamos começar a construção da base onde o anjo será instalado", informou Edinha Pinheiro. "O local já está escolhido e estamos estudando qual a melhor forma de realizar o transporte", disse a prefeita, adiantando que a cor será alterada para melhor contextualização com a paisagem. Os custos para remover, transportar e reinstalar o anjo azul gira em torno de R$ 20 a 30 mil. Antes de ir parar nas mãos de Walde, o anjo chegou a ser oferecido à Prefeitura de Natal (que não se interessou devido o custo de remoção) e à vitralista curitibana Analys Berti, interessada em levar o anjo para a praia de Caraúbas, Maxaranguape, litoral Norte do RN (45 km da capital). Vistosa e um tanto desproporcional para o local onde está instalada, a obra do artista plástico Jordão, o Anjo Azul serviu como ponto de referência para uma galeria de arte de mesmo nome que funcionou no local entre 2007 e 2010. A casa onde funcionou a galeria foi adquirida pelo empresário Adroaldo Carneiro, cujos planos é construir no local nova sede para a filial da Adroaldo Tapetes. Um final feliz para o anjo. Aconchegante Para quem não conhecia a região, que tem a cidade de Passa e Fica e a famosa "Pedra da Boca" como portas de entrada para os municípios serranos, o Festival Gastronômico e Cultural de Monte das Gameleiras foi uma ótima oportunidade para conferir a paisagem surpreendente da Borborema potiguar, termo que significa "terra infértil, estéril". Via Crucis Entre as principais atrações do lugar está o mirante da Capela de Nossa Senhora da Boa Saúde, cerca de 570 metros acima do nível do mar, de onde é possível se ter uma visão privilegiada de toda a área. O local tem forte vocação para o turismo religioso, e para se chegar até lá o visitante passa por uma verdadeira e literal 'via crúcis': todo o caminho é pontuado pelas 14 estações que representam o trajeto vencido por Jesus Cristo até o Calvário. A 'Via Sacra' de Gameleiras ainda receberá cuidados. "O trabalho vai continuar esta semana, pois eles (os produtores) também querem recuperar as imagens das 14 estações da via crúcis e envelhecer a pintura da Capelinha", adiantou a prefeita Edinha. Sinalização e buracos Apesar da paisagem recompensadora, chegar em Gameleiras não é tarefa das mais fáceis: não há uma só placa indicando o caminho em todo o percurso. Quem não possui um aparelho de GPS (que mostra todas as coordenadas do trajeto e funciona via satélite), o jeito é viajar com um mapa detalhado do RN em mãos e parar para pedir informações para não correr o risco de ir parar na Paraíba. As estradas também não são das melhores: o trecho entre Passa e Fica e São Bento é o mais esburacado e requer atenção redobrada de quem trafega pela serra. A dica para os novatos é viajar durante o dia.

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